Contos #6 - Contágio - Daniel Lima

Olá Pessoas, tudo bem com vocês???
Na semana passada não postei o conto porque não teve e confesso que eu havia desistido de continuar com o programa no grupo porque as pessoas não estavam mais empolgadas, mas daí começaram a pedir para continuar e eu não resisti e continuei eu e as adms do grupo colocamos o conto para domingo, para quase todo mundo iria ficar melhor e de seis contos postados o vencedor foi do Daniel Lima. Vamos ver a escrita dele?


Daniel Lima
Contágio

Eu saio da sala do consultório e fecho a porta com uma batida suave. Essa é a minha quinta consulta, e talvez a mais cruel de todas. Cruel porque tudo o que eu ouvi até agora eram informações imprecisas, frases desconexas, médicos e enfermeiros tentando amenizar a situação, mas nada disso amenizou a acidez da verdade. Tenho uma doença gravíssima no fígado, de modo que se não tentar um transplante nos próximos cinco dias, provavelmente terei apenas algumas horas de vida.
Meus pais apreensivos discutem com os médicos, mas não ouço uma palavra. Apenas encosto a cabeça contra a parede e observo o corredor cinza. Morrer nunca foi uma coisa a qual eu pensei muito, mas é o que ocupa 99% da minha cabeça agora.

Ouço passos ao longe, um sapato de solado duro que bate contra o mármore num movimento rítmico. Sem ânimo, ouso levantar os olhos e então estremeço. As botas de camurça negra são seguidas de um corpo atlético, alto e forte. Pele pálida, cabelos da cor do ébano que passeiam suavemente ao vento. Olha-me com grandes expressivos olhos cor de menta. Solto o ar, e percebo que estive segurando-o por muito tempo. Ofego.

— Tudo bem com você? — pergunta-me, parando ao meu lado
— C-Claro — gaguejo, forçando-me a encobrir meu rubor.
— Não é o que parece, — me diz, suavemente. — Você está meio sem cor, não quer comer alguma coisa?
Eu tento articular alguma resposta, mas minha garganta subitamente se recusa a dizer alguma coisa.
— Se foi por causa do resultado do exame, eu talvez possa ajudar. — diz.
— Como você...? — pergunto atônito.
— Você está na ala dos diagnósticos, não vê? — Me diz, apontando para uma pequena placa de metal acima da minha cabeça. Leio “Diagnósticos e Exames”.
— Me desculpe. Minha cabeça ainda está meio confusa, ouvi muita coisa agora.
— Me acompanhe — me convida.
Caminhamos em silêncio para o centro do hospital, e antes que eu me desse conta, estávamos sentados na cafeteria. É um lugar bem aconchegante, com grandes poltronas vermelhas felpudas, contrastando com o cinza predominante das paredes e do mármore.
— Tenho uma doença muito grave no fígado, e se não puder realizar o transplante nos próximos cinco dias irei morrer em breve — eu digo mais tarde, quando já tínhamos terminado de nos apresentar. É claro que tanto quanto a pergunta como a resposta trouxeram um indesejável clima tenso.
— Entendo. Seus pais iram ceder o órgão para realizar o transplante? — pergunta-me, sua voz é tão calma, incapaz de se abalar pelo conflito interno o qual me encontro.
— Meus pais são adotivos, não tenho certeza se serão compatíveis — dou de ombros.
Uma ponta de surpresa brota no ponto acima de suas sobrancelhas.
— Há algum outro parente, então? — pergunta.
Abaixo a cabeça e movimento-a em um triste “não”. Um novo silêncio constrangedor brota novamente. Uma garçonete se aproxima com dois sucos de laranja, de cores deliciosas, e os põe sobre a mesa. Seus dedos ágeis destacam dois saches de açúcar, mistura o conteúdo aos copos e me entrega um. Eu tomo um gole com sede, o gosto doce da laranja fresca explode em minha boca.
— Bom, pelo que sei, esse hospital tem a melhor especialização em transplantes da cidade, tenho certeza que eles encontraram alguém compatível a tempo. Desejo muita sorte a você — me diz com um sorriso de dentes brancos e perfeitos, estendendo a mão para que eu a aperte.
Levanto timidamente, e estendo meus dedos, mas um mal-súbito, uma fraqueza me atinge. Tento segurar na mesa, mas os joelhos me falham e eu caio no chão como um saco vazio. Não desmaio, mas a fraqueza é demais para sustentar qualquer ação. Minha bochecha colada ao chão frio sente a vibração de passos e mais passos apressados que seguem em minha direção, junto da maca de metal que faz um barulho estridente.
— Chequem os batimentos — ouço um senhor berrar para a multidão. Eles levantam meu corpo inerte e me colocam na maca, que voa apressadamente pelos corredores. A maca para finalmente numa sala quente, com um forte cheiro de álcool e esterilizante, um conjunto de perfumes mórbidos de uma sala de cirurgia.
— Há algum órgão para o transplante agora? — o senhor pergunta. Não há resposta.
— Nenhum? Nem nos outros hospitais da região? — berra. Silêncio novamente. Minhas pernas tremem e meu corpo começa a chicotear dentro de si.
— Está piorando — ele grita apreensivo, — Vou entubá-la. Prepare a anestesia.
Minutos depois sinto uma mão pequena, de luvas de látex, apertando meu antebraço e aplicando uma anestesia. A agulha penetra na minha pele e deposita um líquido cáustico e ríspido através de minhas veias. Arrisco abrir os olhos e tudo o que observo são dois olhos de menta que me encaram apreensivos e então desmaio novamente.
Quando eu acordo, não consigo me mexer. Alguma força, muito maior do que a minha, me impede de mover um músculo sequer. Não abro os olhos, porque talvez o medo seja maior que a dúvida, maior que a incerteza, maior que a falta de segurança.
— O paciente está sedado. Tentamos tudo o que pudemos, mas não conseguimos salvar o órgão. Ele entrou em falência antes que pudéssemos fazer alguma coisa. — Uma voz familiar e abafada soa do lado de fora do quarto, seguido por alguns soluços e gemidos.
— Não acho que sobreviva mais do que algumas horas. É questão de tempo até que a doença comece a atacar os outros tecidos. — ouço-o lamentar. Os soluços aumentam.
O silêncio assombroso se estende sobre o quarto mais uma vez, que perdura por horas. A calmaria que me acalenta, enquanto eu permaneço aqui, no meu sono de morte.
Muito mais tarde, eu suponho que seja lá pelas tantas da madrugada, eu ouço a porta abrir e fechar com um barulho uníssono. Passos suaves até minha cama e então uma mão fria, que encosta-se a minha barriga, sobe pelo meu peito e chega até meu pescoço. Um grito tenta fazer o caminho através de meu esôfago, mas é abafado pela dor lancinante de duas presas que se atrelam ao lado direito do meu pescoço, através da minha jugular. Meu coração atinge os limites mais altos de batimentos, minhas mãos suam, sinto cada pedaço de mim entrando em colapso. Então meu corpo explode, fazendo cada célula do meu corpo grita por socorro. Uma onda gelada e ácida percorre pelos meus tecidos, através de meus órgãos, preenchendo, queimando, transformando.


Acordo me sentindo maravilhosamente bem. Abro os olhos e observo em volta. Minha visão está modificada, vejo cada detalhe da sala. O brilho de cada pedaço de metal, as farpas de madeira das poltronas e consigo enxergar as fibras do lençol de algodão no qual estive deitado, que se encontra embebido de suor. O que aconteceu, naquele sonho estranho? O que mudou? Não sei, estou confuso, preciso de tempo para pensar. Arrasto-me pro banheiro e me olho no espelho. Meu rosto está mais branco do que nunca, meus olhos estão amarelados. Tenho fome, minha garganta queima. Fecho os olhos e respiro fundo. Até que sinto um cheiro, diferente de tudo o que já senti: quente, adocicado, cítrico e sem sombra de dúvidas, delicioso. Corro de volta pro quarto e encontro em cima da cama, uma maçã, embebida em sangue viscoso. O líquido escurdo escorre de dentro da maçã e pinga no assoalho do quarto. Do lado, um bilhete:


“Eu salvei você. Espero que aprecie sua nova vida”.


Não há assinatura. Pego a maçã entre os dedos vacilantes e dou uma dentada. Sinto o gosto doce do sangue e o sabor cítrico da maçã descendo pela minha garganta. Afasto a maçã de meus lábios num movimento brusco. “Meu Deus, o que fiz?” penso.

Olho a maça e o horror drena a força das minhas pernas quando vejo claramente cravadas na fina pele verde da maçã, duas presas afiadas.
“Sou um monstro”.
— Não é — ouço e dou um pulo para trás. Um vulto negro e esguio espreita no canto da sala. Aperto os olhos para vislumbrar sua face. Vejo um sorriso brilhante, quase fosforescente em meio ao breu. Duas presas aguçadas e cândidas. Ele dá um passo, deixando a penumbra da janela iluminar seu rosto. E eu vejo. Dois grandes olhos cor de menta, apertados por um sorriso enorme de dentes afiados e, sobretudo, tremendamente fascinantes.

8 comentários

  1. Bem legal... mas como são olhos cor de menta? É sério, estou querendo ver olhos assim... kkkk
    ;)
    Letras & Versos

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    1. Srsrrsrs nem sei Anna,mas amei essa nova cor de olho imagino que seja um verde nem muito claro e nem muito escuro.... Xero!

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  2. UAU!!!

    A principio eu achei que ele estava narrando a própria morte e fiquei apreensiva... eu gostei do conto, sou suspeita porque adoro esse universo vampiresco, é olha que tantos já escreveram sobre esse tema, mais ainda me surpreendo com alguns universos criados sobre o tema.

    Bjks
    Patty Santos - Blog Coração de Tinta
    http://coracaodetinta.blogspot.com.br/

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    1. Pois é Patty tive a mesma sensação rsrsrsrs e amo o mundo dos vampiros... são os meus amores.... Xero!1!

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  3. Quem não estava mais empolgado?
    Nossa que demais.
    Amei ver o conto do autor ^^
    ótimo post.
    bjus
    Tamires C.
    http://de-tudo-e-um-pouco.blogspot.com.br/

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    1. Valeu Tamires o Daniel super agradece... Xero!!!

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  4. Oi linda...
    Não tinha visto o post anterior do Daniel..
    Mas pude ver neste que ele escreve muito bem.
    Parabéns para ele.

    Eu vim dizer que tem Tag para você em meu blog.
    Espero que goste.

    Beijos
    http://livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br/2013/07/tag-6-perguntas-que-ninguem-nunca-fez.html

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    1. Ahhhh que legal Lê... vou dar uma olhada ... xero!!!

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